quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Legião que conquistou uma legião

E eis que surge a década de 80, e com ela grandes nomes do rock brasileiro, como Titãs, Paralamas do Sucesso, Blitz e talvez a maior de todas, Legião Urbana. Formada por Renato Russo (Voz), Renato Rocha (Baixo), Dado Villa-Lobos (Guitarra) e Marcelo Bonfá (Bateria) essa banda conquistou uma verdadeira legião de fãs. Mais tarde, Renato Rocha sai da banda que continuou com os outros três integrantes. Suas músicas apresentavam algo que faltavam em muitas outras bandas: Poesia e letra que atingiam o coração das pessoas. Como disse Dado Villa-Lobos em uma entrevista, “O Renato tinha uma capacidade muito grande de traduzir os sentimentos por meio da música”, de certa forma ele conseguia dizer o que as pessoas gostariam de expressar e não conseguiam. Talvez por isso tanta gente tenha se identificado com suas músicas. 

A banda começou tocando em pequenos eventos e deu um salto quando Bi Ribeiro, ex-aluno de inglês de Renato Russo conseguiu uma oportunidade para que a banda fizesse uma gravação pela EMI, gravadora dos Paralamas do Sucesso, que fazia muito sucesso na época e que vieram a se tornas os “padrinhos” da Legião. O primeiro LP da banda foi lançado em 1985, entitulado ‘Legião Urbana’. No mesmo ano, a banda começou a gravar seu próximo disco, lançado com o nome ‘Dois’, contendo sucessos como Índios, Tempo Perdido, Fábrica e Quase sem Querer. Esse disco marca época no rock e se torna um marco para a banda. Neste disco a Legião acaba definindo seu estilo, um rock suave, com pitadas de hardcore, letras profundas e com críticas a sociedade e a humanidade, mas extremamente poéticas que levam à reflexão. 

Dois anos mais tarde a Legião lança o disco “Que País é Esse”, que alcançou boa vendagem. Uma curiosidade deste disco é que contém uma música fora dos padrões comerciais. Estamos falando de ‘Faroeste Caboclo’ que contem aproximadamente nove minutos de duração, e muda de ritmo várias vezes, e apesar disso, fez enorme sucesso sento tocado com frequência nas rádios. 

Depois de um longo tempo sem gravar, o público se depara com uma surpresa: o disco ‘As Quatro Estações’. Esse foi um dos álbuns mais vendidos da banda, em que quase todas as músicas fizeram sucesso, como ‘Pais e Filhos’, ‘Monte Castelo’, ‘Quando o Sol Bater na Janela do seu Quarto’, dentre outros. 

Em 1990 a banda passa por reviravoltas. Renato Russo assume publicamente seu homossexualismo e no mesmo ano descobre que estava com AIDS, e como se não bastasse se afunda no vício das drogas. Esses acontecimentos influenciaram o próximo álbum “V”, lançado em 1991. Esse álbum contém sucessos como ‘Vento no Litoral’, ‘Metal Contra as Nuvens’ e ‘O Teatro dos Vampiros’, só para citar alguns. Em 92 a gravadora lança a coletânea “Música para Acampamentos” contendo vinte gravações ao vivo. Mais dois anos sem gravar e em 93 a banda lança o sexto disco, o “Descobrimento do Brasil”, que contém a música ‘Giz’ que é a música que Renato mais gostava de cantar. 

O último trabalho da banda, “A Tempestade (Ou o Livro dos Dias)” foi lançado em 1996. Este disco contém melodias que expressam tristeza, e as músicas trazem mensagens de dor, despedida e tragédia. No dia 11 de outubro do mesmo ano, os fãs ficaram chocados com a notícia da morte de Renato Russo. Dias depois é anunciado que a legião estava oficialmente terminada. 

A Legião Urbana foi uma banda que realmente chegou com uma proposta diferente, conquistando uma infinidade de fãs que se renovam por gerações e desta forma escreveu seu nome na história do rock brasileiro.

Anos 80

Nos anos 80, o rock brasileiro se firma no mercado. Nomes consagrados da MPB e da música romântica cedem espaço nas paradas de sucesso a artistas influenciados pelas novas tendências internacionais. Punk, new wave e reggae ecoam no Brasil. 

O grupo Blitz, liderado por Evandro Mesquita, é o primeiro fenômeno espontâneo. Sua música "Você não soube me amar", de 1982, é sucesso nacional. Segue-se um surto de novos talentos, como Barão Vermelho, que tem Cazuza, considerado o maior letrista do rock brasileiro dos anos 80, Kid Abelha & os Abóboras Selvagens, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Camisa de Vênus. São eles os novos interlocutores da juventude. Uma fusão de MPB com a música pop internacional ganha espaço no rádio. Eduardo Duzek, Marina Lima, Lulu Santos, Lobão e Ritchie são os representantes dessa tendência. 

O grupo paulistano RPM, liderado por Paulo Ricardo, chega a vender 2 milhões de discos entre 1986 e 1988. Ainda de São Paulo emergem Ultraje a Rigor (com a música Inútil) e Titãs, cujo disco Cabeça dinossauro transforma-se em marco da musicalidade produzida no período. Veja uma lista das bandas nacionais que mais se destacaram nos anos 80:

Blitz, Barão Vermelho, Camisa de Vênus, Titãs, Ultraje a Rigor, Ira!, Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Havaí, RPM, Cabine C, Kid Abelha & os Abóboras Selvagens, Heróis da Resistência, João Penca e os Miquinhos Amestrados, Capital Inicial, Plebe Rude, Finis Africae, Biquini Cavadão, Lobão e os Ronaldos, Ritchie, Rádio Táxi, Roupa Nova, Lulu Santos, Leo Jaíme, Kiko Zambianchi, Os Inocentes, Cólera, Ratos de Porão, Garotos Podres, Olho Seco e Mercenárias.

História do Casa das Máquinas

A banda começou quando José Aroldo Binda (Aroldo) e Luiz Franco Thomaz (Netinho), dois ex-integrantes da banda Os Incríveis, juntou-se a Carlos Roberto Piazzoli conhecido como Pisca , Carlos Geraldo Carge, ex-integrante da banda Som Beat, que tocava baixo e guitarra, e Pique, ex-integrante da banda de Roberto Carlos que tocava órgão, piano, saxofone e flauta. No começo ficaram conhecidos como "Os Novos Incríveis", fazendo shows por todo o Brasil. 

Seu repertório incluía músicas de Elvis Presley, Paul Anka, Chubby Checker, Neil Sedaka, entre outros. Nas apresentações vestiam figurinos, se maquiavam e davam grandes performances teatrais no palco. 
     Em 1974 entraram em estúdio e gravaram seu primeiro LP, intitulado "Casa das Máquinas". Neste primeiro disco a banda seguiu um padrão mais hard rock, que lembrava muito o estilo dos Incríveis. Com a saída de Pique, logo depois da gravação do disco, a vaga se abriu para um virtuoso tecladista da época, Mario Testoni Jr., que trouxe Marinho Thomaz (bateria), irmão de Netinho, ambos deram um grande vigor para a banda na época, foi uma das primeiras bandas de rock a usar dois bateristas. 
     Entraram em estúdio em 1975 e gravaram “Lar de Maravilhas”, onde foi adotado um estilo mais progressivo. 

Netinho conheceu um grande compositor, ainda menor de idade, chamado Catalau, também descoberto por Pisca em 1976. A primeira letra que fez foi "Rock que se cria", compôs com a banda dois discos, Lar de Maravilhas (1975) e Casa de Rock (1976). 
No disco seguinte ocorreram algumas modificações na formação: Carlos Geraldo e Aroldo saíram e o grupo passou a procurar por um vocalista e um baixista.Foi a vez de Simbas assumir os vocais principais; ex-vocalista do Mountry, banda de bailes e shows da época, Simbas trouxe para o grupo sua voz e seu estilo andrógeno no palco. Netinho ofereceu o convite para Simbas logo que chegou de uma viagem a Londres, indicado por Caramês (jornalista da revista POP); Simbas ainda teria tido outra oferta de ser vocalista da banda Tutti Frutti, porém optou pela proposta de Netinho e ingressou no Casa das Máquinas. 

Entraram em estúdio e gravaram Casa de Rock, sem baixista; Pisca fez as linhas de baixo e só depois foi convidado João Alberto para assumir o posto de baixista. Nessa mesma época o Casa conseguiu uma apresentação na TV Tupi, que não foi ao ar por causa da censura; Simbas teria vestido roupas chamativas e feito movimentos exóticos, e este teria sido o principal motivo. Mais tarde o vídeo estaria disponibilizado na internet. Agora seria a vez de Marinho Testoni deixar a banda; seu contrato acabou na época e ele recebeu uma boa proposta para integrar o grupo Pholhas. 

Seguindo o caminho a banda continuou sem tecladista fixo, Pisca, que era o gênio instrumental, tocava teclado em algumas músicas que não precisavam de guitarra, como "Vale verde" e "Mania de ser". Entraram em estúdio e gravaram o videoclipe da música "Casa de Rock" que continha um cenário com máquinas e andaimes, lembrando mesmo o nome da banda, e publicado mais tarde no Fantástico, da TV Globo. 

Quase no fim da carreira fizeram um show em Santos em 1978 que foi gravado em uma fita cassete e depois pirateado para CD, uma das últimas apresentações do grupo. 

A possibilidade do retorno da banda havia sido estudada há tempos, em dezembro de 2003. Netinho reformulou a banda para uma apresentação única em Matão, interior de São Paulo, e a resposta do público foi melhor que a banda esperava. Essa formação contou com Netinho, Marinho Testoni e Marinho Thomaz, e chamado para o vocal e baixo Andria Busic (Dr. Sin) e Sandro Haick na guitarra. 

Em janeiro de 2008 foram convidados para tocar no Festival Psicodália de Carnaval, na Serra do Tabuleiro, em Santa Catarina, com um público de 3000 pessoas cantando todos os clássicos da banda, o Casa das Máquinas mostrou com muita energia e competência o porque deveria voltar, a formação que se apresentou festival em 3 de fevereiro de 2008 contou com Netinho seu irmão Marinho Thomaz, Marinho Testoni, Andria Busic e Faíska, daí por diante a banda foi concretizando cada vez mais o seu retorno tendo shows fantásticos para provar isso, como na Virada Cultural que aconteceu na Capital no dia 07/05/2008 e na Expo Artur que ocorreu na cidade de Artur Nogueira interior de São Paulo no dia 11/10/2009, nesses shows a banda mostrou que tinha tudo para ficar e isso levou os fãs ao delírio, mas as coisas não ficaram só ai, dois meses depois no dia 16/12 do mesmo ano a banda dividiu o palco com o lendário vocalista Glenn Hughes ( ex - Trapeze, Black Sabbath e Deep Purple ), o show ocorreu no Carioca Club em São Paulo. 

Depois de muita negociação, o Casa das Máquinas finalmente em 2010 concluiu o tão esperado retorno, esse momento foi oficializado com o show no Carioca Clube no dia 07/04/2010 que contou com a participações de vários músicos consagrados do rock nacional, entre eles, Paulo Zinner, Oswaldo Malagutti, Sergio Hinds, Carlos Geraldo e Luiz Carline. Nesse show foi apresentado João Luiz o novo vocalista da banda que trouxe em sua bagagem, muita energia. 

O Casa ainda passou por algumas mudanças até definir a sua nova formação que hoje conta com: 



Mario Testoni Jr.– Teclados 

Mario Tomaz (Marinho) – Bateria 

João Luiz – Vocais 

Leonardo Testoni – Guitarra 

Fabio César – Baixo

Rock anos 70 , eis que surge!

     O endurecimento do Regime militar levou Caetano e Gil ao exílio em Londres, onde viveram de 1969 a 1972. Durante o período, gravaram dois discos considerados dos seus melhores, Transa (Caetano), e Expresso 2222 (Gil). Após sair dos Mutantes no final de 1972, Rita Lee iniciou uma muito bem sucedida carreira solo, acompanhada do grupo Tutti Frutti. 
     É nesse período, que ela lança o seu mais memorável álbum: o Fruto Proibido de (1975), disco este, que contém os sucessos "Agora só falta você", "Esse tal de Roque Enrow" e "Ovelha Negra". Arnaldo Baptista também gravou o aclamado Loki? (1974).
    Os Mutantes ainda atravessaram a década convertidos ao rock progressivo, passando por várias formações e dissolvendo-se em 1978. Em 1973, surgiram Secos & Molhados, liderados por João Ricardo, com Ney Matogrosso como vocalista, que faziam a chamada "poesia musicada", com canções muito bem elaboradas como "Rosa de Hiroshima" ou "Prece Cósmica", apesar de alguns flertes menos poéticos e mais divertidos como "O Vira". 
    Dois álbuns e um ano depois, em 1974, o grupo com sua formação clássica (João, Ney e Gerson Conrad) se desfez.Em 1973 também surgiu outro ícone: Raul Seixas, que vendera 600.000 compactos de "Ouro de Tolo" em poucos dias e se tornaria "bardo dos hippies" com músicas debochadas como "Mosca na Sopa" e "Maluco Beleza", esotéricas como "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás" e "Gita", e as motivacionais "Metamorfose Ambulante" ( que compunha aos 14 anos) e "Tente Outra Vez".
    Movimentos surgiram em outros locais do Brasil: em Minas Gerais, o "Beatlesco" Clube da Esquina, liderado por Milton Nascimento e Lô Borges; e no Nordeste, a "nova onda" dos Novos Baianos, além da chamada "Invasão Nordestina": artistas que misturaram o sertanejo ao rock, como Fagner, Zé Ramalho e Belchior.
     Mesmo com o pouco espaço na mídia, várias bandas e estilos se destacavam no circuito underground da época, como o progressivo regional de O Terço (que chegou a gravar um álbum em inglês voltado para o mercado italiano), o hard rock do Made in Brazil, o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabyra e o hard progressivo do Casa das Máquinas.
     Este último grupo em especial damos destaque a um dos integrantes da formação original do Casa das Máquinas o músico Mario Testoni Jr. que faz parte da historia do Rock N’ Roll Nacional no inicio da década de 70, que retornou as atividades Rockeristicas, com retorno da Banda (final de 2009 incio de 2010), ...”É emocionante ver nos shows a galera que curti o som da Banda e a acompanha e também uma galera mais nova cantando todos os hit’s junto com a Banda”...(Marinho Testoni Jr.1º semestre de 2011, reunião sobre TCC).

domingo, 25 de setembro de 2011

A SONORIDADE BARROCA DO 14 BIS

     O grupo musical mineiro 14 Bis, formado por Sérgio Magrão, Vermelho, Heli Rodrigues e pelos irmãos Cláudio e Flávio Venturini (que deixou o grupo em 1987 para seguir carreira solo), pode ser considerado o braço pop do chamado Clube da Esquina, o já lendário movimento musical mineiro que se organizou na década de 70 em torno de Milton Nascimento. O 14 Bis não é, no entanto, uma banda de rock ortodoxa; na verdade, eles inauguraram uma tendência nova na música popular brasileira ao unir o rock e o pop, sobretudo sob a influência dos Beatles, a elementos típicos da MPB, especialmente as toadas, tão características da música mineira. A principal importância do grupo se deve ao fato de essa fusão de rock e MPB ter permitido a transição da música popular brasileira dos anos 70, herdeira da bossa nova, ao rock brasileiro dos anos 80.


Histórico

     O 14 Bis surge em 1979 da reunião de músicos provenientes de dois outros grupos: O Terço (Flávio Venturini e Magrão), voltado para o rock progressivo, e Bendegó (Vermelho e Heli), de tendência ao rock rural, mais Cláudio Venturini, irmão mais novo de Flávio. Este conhece Vermelho (cujo apelido deriva do tom ruivo de seus cabelos) ainda em 1968, quando ambos serviram o exército. A descoberta de afinidades foi imediata e daí surgiria uma fecunda parceria. A partir do circuito de bailes de Belo Horizonte e dos festivais estudantis de música do final dos anos 60, a dupla travou contato com alguns nomes que posteriormente viriam a se tornar expoentes da música mineira: Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, Tavinho Moura, Túlio Mourão e outros. Já nesse período, Flávio e Heli tocam juntos em alguns conjuntos de rock de âmbito doméstico. Em 1973, Flávio e Vermelho participam como instrumentistas e arranjadores do primeiro LP de Lô Borges, conhecido como “o disco do tênis” por ter na capa a foto de um par de tênis. No mesmo ano, participam também de um álbum que reuniu Beto Guedes, Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi. A partir daí, Flávio vai integrar o grupo O Terço, onde conhece o baixista Sérgio Magrão, e Vermelho e Heli partem para o Bendegó.
Em 1977, Flávio, Vermelho e Heli se reencontram para participar do primeiro LP solo de Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico, do qual Cláudio participa como técnico de som. No ano seguinte, Flávio e Vermelho tomam parte no célebre álbum Clube da Esquina 2, de Milton Nascimento, que inclui a hoje clássica Nascente, de Flávio e Murilo Antunes. Em 1979, Flávio é convidado pela gravadora EMI-Odeon a gravar um disco solo, mas em vez disso propõe a formação de uma banda: é o início do 14 Bis.

Influências barrocas no som do 14 Bis

     Se o 14 Bis já é um grupo musical original por conta da fusão rock/pop/MPB, ele apresenta ainda uma outra característica inovadora no cenário da música popular brasileira: o resgate de elementos do barroco, estilo artístico que tanto marcou a história de Minas Gerais. Uma das características mais marcantes da música barroca é o contraponto, isto é, a superposição de duas ou mais melodias que reproduzem um determinado tema. Nesse sentido, a música barroca é uma música “polifônica”. O 14 Bis tem como traço vocal característico a harmonização polifônica das vozes, o que constituiu uma novidade em termos do rock brasileiro, cujos grupos, em sua maioria, até hoje ainda cantam em uníssono. Mais ainda, a marca registrada do 14 Bis é o seu vocal de falsete, recurso até então muito pouco explorado na MPB, o qual remete, sem dúvida, ao vocal dos castrati, cantores de ópera dos séculos XVII e XVIII que, por terem sofrido ablação dos testículos, conservavam uma voz aguda e infantil mesmo depois de adultos. Assim, o vocal do grupo lembra muito um coral infantil, típico das cantatas e oratórios barrocos.
    Outra característica “barroca” do grupo é o uso de uma sonoridade típica da música sacra, com o emprego abundante do órgão e, vez por outra, de sinos (como em Pedras Rolantes, de 1980, por exemplo). Nessa música, a própria melodia, somada ao arranjo instrumental e à vocalização coral, cria um clima de religiosidade. É claro que o uso do órgão não é exclusividade do 14 Bis, já que o rock progressivo dos anos 60 e 70 fez amplo uso desse instrumento (e dos teclados eletrônicos em geral), mas no grupo mineiro o órgão assume um tom quase religioso, o que raramente se encontra no som de bandas como Yes, Genesis ou Pink Floyd, por exemplo. Aliás, o órgão, instrumento pouco comum na MPB, é companheiro constante dos músicos mineiros. Basta lembrarmos os acompanhamentos de órgão de Wagner Tiso nos discos de Milton Nascimento e o famoso órgão da abertura de Agnus Sei, de João Bosco, por sinal uma canção com temática religiosa. Na música mineira em geral, e na do 14 Bis em particular, a presença do órgão — e às vezes também do cravo — tem muito mais ligação com a tradição barroca do que com o rock progressivo de origem britânica.
     Isso se nota claramente numa peça como Salve Rainha, de Tavinho Moura e Zé Eduardo, gravada por Beto Guedes em 1977 com arranjo vocal e instrumental de Flávio e Vermelho, onde o órgão e os vocais de fundo lembram propositalmente um coral de igreja, o que é acentuado pelo título da canção. No primeiro grande sucesso do 14 Bis, Canção da América, de Milton Nascimento e Fernando Brant, assim como ao longo de todo o primeiro álbum do grupo, de 1979, o órgão sobressai aos demais teclados. Ainda em Canção da América, podemos ouvir um acompanhamento de violoncelo bem ao estilo das sonatas de Bach para o instrumento.
      Em Carrossel, de 1980, o cravo, as flautas e o naipe de cordas dão o tom barroco à composição. Nessa música (e em outras do grupo), percebe-se outra característica tipicamente barroca: o trinado, recurso que consiste na alternância rápida de duas notas contíguas. Em Fantasia Barroca, de 1982, pertencente ao primeiro álbum solo de Flávio Venturini, o 14 Bis comparece novamente ao som de cravo, além do violino de Marcus Viana, justificando o título da música. Essa sonoridade “antiga” do 14 Bis, que remete à música medieval, renascentista e barroca, aparece em A Qualquer Tempo, de 1981, com seu som de flauta doce e seu ritmo composto que lembra uma sarabanda ou um rondó, e em Tudo Céu, de 1998, ambas de autoria de Vermelho, que, ainda estudante de música, costumava freqüentar os festivais de inverno que ocorriam no interior de Minas, nos quais predominava a música clássica. Na verdade, tanto Vermelho quanto Flávio Venturini possuem uma formação musical clássica, e Vermelho teria mesmo seguido carreira como músico erudito, não fosse a paixão despertada pela música dos Beatles. Esse gosto por temas antigos prossegue em peças como Pequenas Coisas, de 1982, e Pedra Bonita, de 1985, dentre outras. Mas muito antes, ainda em 1976, Flávio já havia composto para O Terço uma peça chamada Sentinela do Abismo, igualmente de sonoridade medieval/barroca.
     Outro elemento barroco do grupo é o uso do bandolim, como em Natural e Três Ranchos, ambas de 1979, cuja sonoridade lembra os concertos para bandolim de Vivaldi. Aliás, em nenhum outro momento da música erudita o bandolim foi tão utilizado quanto no barroco, e em nenhum outro momento do rock brasileiro esse instrumento foi utilizado como pelo 14 Bis. A relação do bandolim com a música mineira remonta ao tempo das serestas, que floresceram em Minas Gerais nas décadas de 40 e 50, e chegou até o Clube da Esquina por herança familiar (os pais de alguns músicos do movimento foram seresteiros e chorões, como Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, por exemplo). E a influência da música de câmara barroca sobre o choro brasileiro, tanto em termos de instrumentação quanto de estrutura melódica e harmônica, é evidente, embora poucos críticos assinalem esse fato.
     Na música barroca, é comum a alternância de trechos em tom maior e trechos em tom menor (relativo). Esse fenômeno é pouco comum na música popular, que de modo geral rejeita esse tipo de modulações. Já nas músicas do 14 Bis essa alternância maior/menor é bastante freqüente: muitas canções do grupo, cujo tema predominante é em tom maior, apresentam uma segunda parte ou intermezzo menor, em geral de autoria de Vermelho. Esse é o caso de Ponta de Esperança, O Vento, a Chuva, o Teu Olhar, Meio-Dia, Nave de Prata, Sem Duvidar, Toada Mineira e dos temas instrumentais 14 Bis, Espelho das Águas, As Quatro Estações de Vega e Tema III.
     O 14 Bis representou nos anos 80 muito mais do que um simples grupo de rock destinado a adolescentes, como tantos outros da época. Sua música nunca se prendeu a modismos, e isso explica por que, passada a onda do rock nacional, o grupo continuou a fazer sucesso. O alto grau de elaboração formal das músicas, mesmo que sob a roupagem ingênua da música popular, faz com que os fãs da banda sejam em geral pessoas de gosto musical apurado, apreciadoras de boa música. Mas sobretudo a fantástica fusão da universalidade, representada pela linguagem do rock e do pop, com a mineiridade, da qual faz parte, sem dúvida, a herança barroca, deu ao 14 Bis seu caráter extremamente original e mostra por que a música popular é um campo fértil de estudos, que deveria ser levado mais a sério pela nossa cultura acadêmica.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Surgimento do Rock no Brasil.

     O "pontapé inicial" do rock no Brasil foi com a cantora Nora Ney (conhecida cantora de samba-canção) quando gravou o considerado primeiro rock, "Rock around the Clock", de Bill Haley & His Comets (trilha do filme Sementes da Violência), em outubro de 1955, para a versão brasileira do filme. Em uma semana a canção já estava no topo das paradas (mas Nora Ney nunca mais gravou nada no gênero, tirando a irônica "Cansei do Rock", em 1961). Em dezembro, a mesma canção recebia versão em português, "Ronda das Horas" (por Heleninha Ferreira) e outra gravada por um acordeonista, não tão bem sucedida quanto a "original".
     Em 1957, foi gravado o primeiro rock original em português, "Rock and Roll em Copacabana", escrito por Miguel Gustavo (futuro autor de "Pra Frente Brasil") e gravada por Cauby Peixoto. Entre 57 e 58, diversos artistas gravaram versões de músicas americanas, como "Até Logo, Jacaré" ("See You Later, alligator"),"Meu Fingimento" ("The Great Pretender" dos The Platters) e "Bata Baby" (Long Tall Sally de Little Richard).
     Embora em 57 o grupo Betinho & Seu Conjunto, de "Enrolando o Rock" tenha alcançado grande fama, os primeiros ídolos do rock nacional foram os irmãos Tony e Celly Campelo que, em 1958, lançaram o compacto Forgive Me/Handsome Boy, que vendeu 38 mil cópias. Tony gravaria mais dois singles até seu álbum em 1959, e Celly estourou em 1959 com "Estúpido Cupido" (120 mil cópias vendidas), chegando a ter boneca própria (com a qual aparece na capa de seu LP "Celly Campello, A Bonequinha Que Canta").
     Os Campello também apresentariam Crush em Hi-Fi na Rede Record, programa totalmente voltado para a juventude, que revelou diversas bandas. Outros programas também surgiram para aproveitar a "febre" como Ritmos para a Juventude (Rádio Nacional-SP), Clube do Rock (Rádio Tupi -RJ) e Alô Brotos! (TV Tupi). Em 1960, surgira até a Revista do Rock.
     O começo da década de 60 foi marcado pelo surgimento de grupos instrumentais como The Jet Black's, The Jordans e The Clevers (futuros Os Incríveis), e do cantor Ronnie Cord, que lançaria dois "hinos": a versão "Biquíni de Bolinha Amarelinha" e a rebelde "Rua Augusta".
     Até que surge um capixaba que se tornaria o maior ídolo do Rock Nacional dos anos 60 e, posteriormente, o maior nome da música brasileira: Roberto Carlos, que emplacou dois hits em 1963: "Splish Splash" e "Parei na Contramão". No ano seguinte, obteve mais sucessos como "É Proibido Fumar" (mais tarde regravada pelo Skank) e "O Calhambeque". Aproveitando o sucesso, a Rede Record lançou o programa Jovem Guarda, apresentado por Roberto ("Rei"), seu amigo Erasmo Carlos ("Tremendão") e Wanderléa ("Ternurinha"). Só nas primeiras semanas, atingira 90% da audiência.
Seguindo o sucesso das Jovem Guarda, surgem entre outros, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, Jerry Adriani, Eduardo Araújo e Ronnie Von, que tinham seu som inspirado nos Beatles (o gênero apelidado "iê-iê-iê") e no rock primitivo. A Jovem Guarda também levou a todo tipo de produto e filmes como Roberto Carlos em Ritmo de Adventura (seguindo a trilha de A Hard Day's Night e Help! dos Beatles).
     Apesar disso, os artistas da MPB "declararam guerra" ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, chegando a um protesto de Elis Regina, Jair Rodrigues, entre outros, conhecido como "Passeata contra as guitarras elétricas". O programa terminaria em 1968, com a saída de Roberto Carlos.
     Em 1966, surgiram Os Mutantes: Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, com seu deboche e som inovador. Em 1967, a dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil faria as canções "Alegria, Alegria" e "Domingo no Parque", apresentadas no III Festival da Rede Record. No ano seguinte, o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band fascinou a dupla, levando a apresentações vaiadas em festivais de Record e Excelsior, e ao álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circensis, com Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto, Capinan, Rogério Duprat e Nara Leão, considerado um dos melhores álbuns brasileiros da história.
     Os Mutantes também criariam carreira grandiosa, com álbuns elogiados a partir de 1968 e chegando a influenciar até Kurt Cobain, do Nirvana. O grupo começaria a se desmanchar com a saída de Rita Lee, em 1973.





     Após sair dos Mutantes no final de 1972, Rita Lee iniciou uma muito bem sucedida carreira solo, acompanhada do grupo Tutti Frutti. É nesse período, que ela lança o seu mais memorável álbum: o Fruto Proibido de (1975), disco este, que contém os sucessos "Agora só falta você", "Esse tal de Roque Enrow" e "Ovelha Negra". Arnaldo Baptista também gravou o aclamado Loki? (1974). Os Mutantes ainda atravessaram a década convertidos ao rock progressivo, passando por várias formações e dissolvendo-se em 1978.