domingo, 25 de setembro de 2011

A SONORIDADE BARROCA DO 14 BIS

     O grupo musical mineiro 14 Bis, formado por Sérgio Magrão, Vermelho, Heli Rodrigues e pelos irmãos Cláudio e Flávio Venturini (que deixou o grupo em 1987 para seguir carreira solo), pode ser considerado o braço pop do chamado Clube da Esquina, o já lendário movimento musical mineiro que se organizou na década de 70 em torno de Milton Nascimento. O 14 Bis não é, no entanto, uma banda de rock ortodoxa; na verdade, eles inauguraram uma tendência nova na música popular brasileira ao unir o rock e o pop, sobretudo sob a influência dos Beatles, a elementos típicos da MPB, especialmente as toadas, tão características da música mineira. A principal importância do grupo se deve ao fato de essa fusão de rock e MPB ter permitido a transição da música popular brasileira dos anos 70, herdeira da bossa nova, ao rock brasileiro dos anos 80.


Histórico

     O 14 Bis surge em 1979 da reunião de músicos provenientes de dois outros grupos: O Terço (Flávio Venturini e Magrão), voltado para o rock progressivo, e Bendegó (Vermelho e Heli), de tendência ao rock rural, mais Cláudio Venturini, irmão mais novo de Flávio. Este conhece Vermelho (cujo apelido deriva do tom ruivo de seus cabelos) ainda em 1968, quando ambos serviram o exército. A descoberta de afinidades foi imediata e daí surgiria uma fecunda parceria. A partir do circuito de bailes de Belo Horizonte e dos festivais estudantis de música do final dos anos 60, a dupla travou contato com alguns nomes que posteriormente viriam a se tornar expoentes da música mineira: Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, Tavinho Moura, Túlio Mourão e outros. Já nesse período, Flávio e Heli tocam juntos em alguns conjuntos de rock de âmbito doméstico. Em 1973, Flávio e Vermelho participam como instrumentistas e arranjadores do primeiro LP de Lô Borges, conhecido como “o disco do tênis” por ter na capa a foto de um par de tênis. No mesmo ano, participam também de um álbum que reuniu Beto Guedes, Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi. A partir daí, Flávio vai integrar o grupo O Terço, onde conhece o baixista Sérgio Magrão, e Vermelho e Heli partem para o Bendegó.
Em 1977, Flávio, Vermelho e Heli se reencontram para participar do primeiro LP solo de Beto Guedes, A Página do Relâmpago Elétrico, do qual Cláudio participa como técnico de som. No ano seguinte, Flávio e Vermelho tomam parte no célebre álbum Clube da Esquina 2, de Milton Nascimento, que inclui a hoje clássica Nascente, de Flávio e Murilo Antunes. Em 1979, Flávio é convidado pela gravadora EMI-Odeon a gravar um disco solo, mas em vez disso propõe a formação de uma banda: é o início do 14 Bis.

Influências barrocas no som do 14 Bis

     Se o 14 Bis já é um grupo musical original por conta da fusão rock/pop/MPB, ele apresenta ainda uma outra característica inovadora no cenário da música popular brasileira: o resgate de elementos do barroco, estilo artístico que tanto marcou a história de Minas Gerais. Uma das características mais marcantes da música barroca é o contraponto, isto é, a superposição de duas ou mais melodias que reproduzem um determinado tema. Nesse sentido, a música barroca é uma música “polifônica”. O 14 Bis tem como traço vocal característico a harmonização polifônica das vozes, o que constituiu uma novidade em termos do rock brasileiro, cujos grupos, em sua maioria, até hoje ainda cantam em uníssono. Mais ainda, a marca registrada do 14 Bis é o seu vocal de falsete, recurso até então muito pouco explorado na MPB, o qual remete, sem dúvida, ao vocal dos castrati, cantores de ópera dos séculos XVII e XVIII que, por terem sofrido ablação dos testículos, conservavam uma voz aguda e infantil mesmo depois de adultos. Assim, o vocal do grupo lembra muito um coral infantil, típico das cantatas e oratórios barrocos.
    Outra característica “barroca” do grupo é o uso de uma sonoridade típica da música sacra, com o emprego abundante do órgão e, vez por outra, de sinos (como em Pedras Rolantes, de 1980, por exemplo). Nessa música, a própria melodia, somada ao arranjo instrumental e à vocalização coral, cria um clima de religiosidade. É claro que o uso do órgão não é exclusividade do 14 Bis, já que o rock progressivo dos anos 60 e 70 fez amplo uso desse instrumento (e dos teclados eletrônicos em geral), mas no grupo mineiro o órgão assume um tom quase religioso, o que raramente se encontra no som de bandas como Yes, Genesis ou Pink Floyd, por exemplo. Aliás, o órgão, instrumento pouco comum na MPB, é companheiro constante dos músicos mineiros. Basta lembrarmos os acompanhamentos de órgão de Wagner Tiso nos discos de Milton Nascimento e o famoso órgão da abertura de Agnus Sei, de João Bosco, por sinal uma canção com temática religiosa. Na música mineira em geral, e na do 14 Bis em particular, a presença do órgão — e às vezes também do cravo — tem muito mais ligação com a tradição barroca do que com o rock progressivo de origem britânica.
     Isso se nota claramente numa peça como Salve Rainha, de Tavinho Moura e Zé Eduardo, gravada por Beto Guedes em 1977 com arranjo vocal e instrumental de Flávio e Vermelho, onde o órgão e os vocais de fundo lembram propositalmente um coral de igreja, o que é acentuado pelo título da canção. No primeiro grande sucesso do 14 Bis, Canção da América, de Milton Nascimento e Fernando Brant, assim como ao longo de todo o primeiro álbum do grupo, de 1979, o órgão sobressai aos demais teclados. Ainda em Canção da América, podemos ouvir um acompanhamento de violoncelo bem ao estilo das sonatas de Bach para o instrumento.
      Em Carrossel, de 1980, o cravo, as flautas e o naipe de cordas dão o tom barroco à composição. Nessa música (e em outras do grupo), percebe-se outra característica tipicamente barroca: o trinado, recurso que consiste na alternância rápida de duas notas contíguas. Em Fantasia Barroca, de 1982, pertencente ao primeiro álbum solo de Flávio Venturini, o 14 Bis comparece novamente ao som de cravo, além do violino de Marcus Viana, justificando o título da música. Essa sonoridade “antiga” do 14 Bis, que remete à música medieval, renascentista e barroca, aparece em A Qualquer Tempo, de 1981, com seu som de flauta doce e seu ritmo composto que lembra uma sarabanda ou um rondó, e em Tudo Céu, de 1998, ambas de autoria de Vermelho, que, ainda estudante de música, costumava freqüentar os festivais de inverno que ocorriam no interior de Minas, nos quais predominava a música clássica. Na verdade, tanto Vermelho quanto Flávio Venturini possuem uma formação musical clássica, e Vermelho teria mesmo seguido carreira como músico erudito, não fosse a paixão despertada pela música dos Beatles. Esse gosto por temas antigos prossegue em peças como Pequenas Coisas, de 1982, e Pedra Bonita, de 1985, dentre outras. Mas muito antes, ainda em 1976, Flávio já havia composto para O Terço uma peça chamada Sentinela do Abismo, igualmente de sonoridade medieval/barroca.
     Outro elemento barroco do grupo é o uso do bandolim, como em Natural e Três Ranchos, ambas de 1979, cuja sonoridade lembra os concertos para bandolim de Vivaldi. Aliás, em nenhum outro momento da música erudita o bandolim foi tão utilizado quanto no barroco, e em nenhum outro momento do rock brasileiro esse instrumento foi utilizado como pelo 14 Bis. A relação do bandolim com a música mineira remonta ao tempo das serestas, que floresceram em Minas Gerais nas décadas de 40 e 50, e chegou até o Clube da Esquina por herança familiar (os pais de alguns músicos do movimento foram seresteiros e chorões, como Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, por exemplo). E a influência da música de câmara barroca sobre o choro brasileiro, tanto em termos de instrumentação quanto de estrutura melódica e harmônica, é evidente, embora poucos críticos assinalem esse fato.
     Na música barroca, é comum a alternância de trechos em tom maior e trechos em tom menor (relativo). Esse fenômeno é pouco comum na música popular, que de modo geral rejeita esse tipo de modulações. Já nas músicas do 14 Bis essa alternância maior/menor é bastante freqüente: muitas canções do grupo, cujo tema predominante é em tom maior, apresentam uma segunda parte ou intermezzo menor, em geral de autoria de Vermelho. Esse é o caso de Ponta de Esperança, O Vento, a Chuva, o Teu Olhar, Meio-Dia, Nave de Prata, Sem Duvidar, Toada Mineira e dos temas instrumentais 14 Bis, Espelho das Águas, As Quatro Estações de Vega e Tema III.
     O 14 Bis representou nos anos 80 muito mais do que um simples grupo de rock destinado a adolescentes, como tantos outros da época. Sua música nunca se prendeu a modismos, e isso explica por que, passada a onda do rock nacional, o grupo continuou a fazer sucesso. O alto grau de elaboração formal das músicas, mesmo que sob a roupagem ingênua da música popular, faz com que os fãs da banda sejam em geral pessoas de gosto musical apurado, apreciadoras de boa música. Mas sobretudo a fantástica fusão da universalidade, representada pela linguagem do rock e do pop, com a mineiridade, da qual faz parte, sem dúvida, a herança barroca, deu ao 14 Bis seu caráter extremamente original e mostra por que a música popular é um campo fértil de estudos, que deveria ser levado mais a sério pela nossa cultura acadêmica.